Resumo

Este artigo parte de uma tese de Doutorado, que trata de uma crítica sobre as novas fronteiras imobiliárias de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. Tem como referência a Operação Urbana denominada Granja Werneck, recentemente licenciada e em fase de implantação em Belo Horizonte. A análise permeia as possíveis relações com as teorias do urbanismo moderno apresentadas pela pensadora francesa Françoise Choay, especificamente o progressismo e o culturalismo, bem como o pensamento contemporâneo do teórico americano Edward W. Soja, que procura contextualizar os recentes processos de reestruturação das metrópoles. O artigo conclui que as teorias do século XIX continuam, apesar da crítica, a serem utilizadas (consciente ou não) como fontes inspiradoras e legitimadoras dos projetos dos empreendimentos urbanísticos contemporâneos.

Palavras-chave: Belo Horizonte, Urbanismo Moderno, Novas fronteiras imobiliárias.

The Influence of Modern Urbanism in Recent Productions of Contemporary Urban Space: Granja Werneck Urban Operation, Belo Horizonte

Abstract

This article part of a doctoral dissertation is a critique of the new real estate borders of Belo Horizonte, capital of Minas Gerais. Its reference Urban Operation called Granja Werneck newly licensed and under implementation in Belo Horizonte, capital of Minas Gerais. The analysis pervades the possible relations with the "scientific theories of urbanism" presented by french thinker Françoise Choay, specifically progressivism and culturalism and contemporary thought the American theorist Edward W. Soybeans that aims to contextualize the recent restructuring of the metropolis. The article concludes that the theories of the nineteenth century remain, despite the criticism, to be used (consciously or not) as sources of inspiration and legitimating projects of contemporary urban developments.

Keywords: Belo Horizonte, Granja Werneck, New real estate borders.

Introdução

Segundo revelou a professora Françoise Choay (1998), as contrapartidas com pretensões científicas do urbanismo moderno surgiram no final do século XIX, reunindo desde os livres pensadores, até os chamados especialistas da questão urbana. A autora, em seu livro “O urbanismo: utopias e realidades: uma antologia”, lançado em 1965, elaborou um vasto estudo sobre as principais teorias urbanas, do final do século XIX a meados do século XX. Transcorridos quase 50 anos de sua publicação, o livro ainda é uma referência teórica nos cursos de arquitetura e urbanismo, principalmente nas disciplinas de projeto de urbanismo. Choay (1996, 1998) revela no livro citado e em publicações de décadas mais tarde, que o urbanismo moderno foi uma das vertentes da teoria urbana mais influentes no século XX. Essa vertente, segundo a autora de inspiração utópica, é subdividida em três versões, progressismo, culturalismo e naturalismo.

Sem pretensão de esgotar o assunto, tentará este artigo demonstrar que, apesar das fortes críticas que receberam, as ideias do urbanismo moderno continuam a influenciar a atual produção dos projetos imobiliários das metrópoles contemporâneas. Essas grandes cidades foram denominadas pelo professor e geógrafo americano Edward W. Soja, como pós-metrópoles (Soja, 2000).

Para a análise dessa produção urbana contemporânea, considerou-se a Operação Urbana denominada Granja Werneck, recentemente licenciada ambientalmente. Compreende a ocupação de umas das últimas áreas livres da cidade de Belo Horizonte, envolvendo a construção de um grande empreendimento imobiliário, contendo unidades residenciais, comerciais e institucionais, previsto para receber aproximadamente uma população de 350 mil pessoas, o que corresponde a quase 12% da população atual de Belo Horizonte. O empreendimento obteve a licença prévia em agosto de 2010 e a licença de implantação em 2012.

As Teorias do Urbanismo Moderno: Progressismo e Culturalismo

Uma das mais representativas vertentes do urbanismo moderno é denominada por Choay (1996) como o modelo progressista. Para a autora, a concepção progressista teve por base a convicção de que a era industrial representou um rompimento radical com o passado, não mais se justificando que as cidades se prendessem às antigas estruturas urbanas, que não apresentariam correspondência com as necessidades e possibilidades geradas pela indústria e pelas conquistas do saber humano que lhe deram origem e sustentação. “Como no pré-urbanismo progressista, encontra-se, pois na base do urbanismo progressista uma concepção da era industrial como ruptura histórica radical” (Choay, 1998:20). Leonardo Benevolo (1998) e Lewis Mumford (1985-1990) (1998) consentem com Choay (1998), ao afirmarem que a crítica progressista dizia respeito a uma presumível desordem na distribuição espacial das funções urbanas da cidade capitalista. Essa desordem se expressaria, sobretudo, em conflitos e incompatibilidades entre funções e entre estas e o meio urbano e natural (Choay, 1970). Caberia então ao teórico progressista estabelecer uma nova concepção de cidade, que

assegurasse esta correspondência. Entre os modelos urbanos representativos dessa vertente do urbanismo moderno, Choay (1998) destaca a Cité Industrielle (Cidade Industrial) e a Ville Radieuse (Vila Radiante), concebidos respectivamente pelos arquitetos franceses Tony Garnier (1869-1948) e Le Corbusier (1887-1965). Com relação a Garnier, Benevolo exalta “[...] a sua visão um pouco utópica da cidade, o cândido verniz de classicismo – que só fazem crescer a admiração por este personagem, modesto e grande, que ainda deve ser devidamente avaliado pela crítica contemporânea” (Benevolo, 1998:344). A partir de 1928, o modelo iniciado com Garnier passa a ser difundido através de um grupo internacional conhecido como CIAM (Choay, 1996). Em 1933, esse grupo propõe um documento síntese dos preceitos do urbanismo moderno, a Carta de Atenas. Esta constitui a base das propostas dos urbanistas progressistas. Porém, segundo Choay, a Carta de Atenas “tomou emprestada a maior parte das citações que se seguem a Le Corbusier [...]” (1998:20). Para a autora, Le Corbusier é o pensador onde a utopia encontrou sua ancoragem mais sólida e a imagem revelada em seus desenhos e sua visão de uma sociedade global aproximando-o ao pensamento utópico de Thomas More (1478-1538) (Choay, 1980).

A segunda linha básica de definição do urbanismo moderno, a Culturalista, propugnava também a retomada da ordem e, ao contrário da primeira, das dimensões humanas do espaço urbano do passado. O inglês Ebenezer Howard (1850-1928) foi o principal teórico. Com suas motivações políticas e sociais, sua proposta se materializou em um paradigma de organização espacial claro e definido: o da Cidade Jardim (Howard, 1996). Existe um consenso entre autores como Mumford (1998), Benevolo (1998), Choay (1998) e Hall (2011) sobre a importância que representaram as suas ideias para a ciência do urbanismo. Benevolo (1998) considera, que a influência de Howard e do movimento que criou encerram a linha de pensamento dos utopistas, tornando-se um divisor entre as concepções da cidade irrealizável para com a cidade realizável. Por sua vez, Hall afirma que “Ebenezer Howard leva a palma, como a mais importante e singular personalidade de toda a história do urbanismo” (Hall, 2011:103). Já Mumford (1998), considera Howard a grande referência do ideário urbano contemporâneo, dedicando inúmeras páginas do livro “A Cultura das Cidades” para analisar e enaltecer o seu ideário. Mumford afirma, que “o gênio de Howard revelou-se no combinar os órgãos existentes da cidade numa composição mais ordenada, baseada no princípio da limitação orgânica e do crescimento controlado” (Mumford, 1998:552).

A Operação Urbana do Isidoro – Empreendimento Granja Werneck

O empreendimento imobiliário denominado como Granja Werneck trata-se de um projeto urbanístico desenvolvido pela iniciativa privada, e resultado de uma demorada e detalhada negociação com o Estado. Consiste em uma operação urbana1 de uma grande área vazia em Belo Horizonte,

  1. []{#_bookmark0 .anchor}O Estatuto das Cidades define no seu Artigo 32 que Operação Urbana é um conjunto de intervenções e medidas coordenadas pelo Poder Público, com a participação dos proprietários, moradores, usuários

denominada como Isidoro, que localiza-se ao norte de Belo Horizonte, próxima à divisa com o município de Santa Luzia, com uma área aproximada de 933 ha (SMMA, 2010) (Fig. 1).

Figura 1 -- Localização da Operação Urbana do Isidoro. Fonte: SMMA, 2010.

Dentro das propriedades que englobam a “Operação Urbana do Isidoro” situa-se uma grande área denominada como Granja Werneck, com cerca de 350 hectares. Está localizada dentro dos limites da Regional Norte, correspondendo a cerca de 1/3 da área da Operação Urbana do Isidoro (FIG. 2). Segundo a LPUOS n° 7166/96 (modificada pelas Leis n° 8137/00 e 9959/11) essa área era caracterizada por ZP2 (regiões, predominantemente ocupadas, de proteção ambiental, histórica, cultural, arqueológica ou paisagística ou em que existam condições topográficas ou geológicas desfavoráveis, onde devem ser mantidos baixos índices de densidade demográfica) e ZPAM (regiões que, por suas características e pela tipicidade da vegetação, destinam-se à preservação e à recuperação de ecossistemas). Tais zoneamentos inviabilizariam a ocupação da área, sendo necessária, para atender os interesses particulares principalmente, a realização da operação urbana, a qual introduziu novos parâmetros para ocupação daquela área.

O início da aprovação dos projetos urbanísticos na PBH da Operação Urbana da Granja Werneck, que faz parte da Operação Urbana Isidoro, deu-se em maio de 2010 com o pedido de

permanentes e investidores privados, com o objetivo de alcançar em uma área transformações urbanísticas estruturais, melhorias sociais e valorização ambiental (BRASIL, 2001).

Licença Prévia para o licenciamento ambiental. Atualmente, em fevereiro de 2014, a PBH aguardava a apresentação dos projetos executivos para a emissão da Licença de Implantação, autorizando assim o início das obras.

Similaridades do Projeto Urbanístico

A infraestrutura básica projetada para a Granja Werneck está dimensionada para um adensamento máximo de aproximadamente 67.620 unidades residenciais e não residenciais, que poderá ser atingido, a partir da utilização dos parâmetros urbanísticos excepcionais estabelecidos na Operação Urbana. Segundo o cronograma apresentado pelo empreendedor, o projeto será implantado em fases, divididas em bolsões residenciais e comerciais, sendo o primeiro, ao sul, situado entre a MG-020 e a comunidade Quilombola Mangueiras (PBH, 2010) (Fig. 2).

Figura 2 - Bolsões e etapas de implantação do parcelamento da Granja Werneck. Fonte: PBH, 2010.

Essa comunidade, descendente de escravos, tem sua origem no final do século XIX. Atualmente, a área ocupada pela comunidade na capital mineira possui grande valor imobiliário. Oficialmente, a Prefeitura reconhece que o território tem apenas dois hectares, dez vezes menos do que estimam os quilombolas, que reivindicam 20 hectares. No quilombo Mangueiras, além de conviverem com a incerteza sobre o futuro, as 12 famílias que vivem no local, ao todo 57 pessoas, ainda são obrigadas a conviver com a degradação ambiental provocada pelas ocupações irregulares no entorno e as pressões por invasão. Ao redor do quilombo, os bolsões de ocupação do projeto Granja Werneck terão um mix de usos que “visa trazer diversidade e animação ao projeto” (PBH, p. 301, 2010). O que o projeto da Granja Werneck procura, pelo menos no discurso, é evitar um processo de

gentrificação2. Essa “elitização” da cidade é uma tendência, que tem a disseminação pelo mundo através de Haussmam e irá acompanhar as políticas de intervenção no espaço das cidades na modernidade. Entretanto, dificilmente os equipamentos previstos no entorno deixarão de impactar no cotidiano da comunidade. Soja (2000) ressalta como o processo de reestruturação urbana tem resultado, no caso de Los Angeles, na acentuação segregação e na segmentação urbana, em termos de etnia, classes e mesmo de categorias ocupacionais. O que, de certa forma, aproxima-se de Belo Horizonte e do empreendimento Granja Werneck.

Observa-se, que na Granja Werneck o traçado urbano, no sentido adotado na Cidade Jardim, tem um papel diferenciado a cumprir, quer na definição de uma circulação estrutural de conjunto, quer na definição de um conjunto de pequenas comunidades, de vida interiorizada e autônoma. Embora, as vias dificilmente apresentariam a dimensão e a presença do verde natural corno as concebidas por Howard (2011) para a Cidade Jardim.

A ocupação proposta também prevê a criação de centralidades em diferentes escalas e níveis hierárquicos, dependendo de sua localização e dos usos e equipamentos que irão abrigar. A principal centralidade do projeto terá abrangência maior, tanto pela sua localização próxima às vias que fazem ligações regionais, como pelos seus usos, que compreendem principalmente comércio, serviços e equipamentos comunitários de maior porte e com maior público (Fig. 3). Lefebvre (1991) revela, que o espaço produzido por esses grupos imobiliários tende para a homogeneidade, porque ele reduz as diferenças (particularidades), separando as funções da prática social. Esse espaço produzido, que o autor denomina como abstrato, apoia-se em enormes centros comerciais, de grandes unidades de produção, fundamentais para o capitalismo.

  1. []{#_bookmark1 .anchor}O neologismo inglês gentrification, trata-se do vocábulo cunhado pela socióloga britânica Ruth Glass em 1964 para referir-se aos processos de subistituição de populações operárias pela classe média em Londres, como resultado das operações de renovação do Estado. Desde a antiguidade, este fenômeno tem sido traduzido como aburguesamento (o vocábulo "aburguesamento" - foi utilizado para denominar a renovação de Paris pelo prefeito Haussmann - Smith, 1996), aristocratização, requalificação social e a ideia de elitização (HERRERA, 2001).

Figura 3 - Setorização pretendida na concepção da Granja Werneck. Fonte: PBH, 2010.

Nas propostas progressistas e culturalistas a centralidade foi uma preocupação dos principais mentores intelectuais. Hausmann remodelou o centro de Paris, abrindo grandes avenidas em direção ao Arco do Triunfo, melhorando as condições físicas e ambientais para a burguesia francesa. Nas concepções progressistas das Cidades Industrial, Contemporânea e Radiante, e culturalistas de Howard, o centro era o espaço destinado aos comércio ou os grandes empreendimentos e o ponto de irradiação das principais vias. Entretanto, cabe destacar que o centro para Howard não possuía as mesmas densidades construtiva e demográfica propostas por Le Corbusier.

Segundo o EIA, “a intenção é implantar moradias com diferentes tipologias, voltadas principalmente para famílias com diferentes perfis e, em segundo plano, considerando-se as faixas de renda” (EIA, 2010, p.255). As famílias que ocuparem os imóveis terão, dentro do próprio projeto, alternativas de comércio, serviços, equipamentos comunitários e de lazer, que atenderão também aos moradores do entorno. No que diz respeito às edificações, o número de pavimentos é diversificado, mas os apartamentos terão dois ou três quartos, além da adoção de diferentes tipologias de construção com diferentes gabaritos (por exemplo, quatro, oito ou doze pavimentos). Essa padronização dos edifícios residenciais justificada, dentre outros, pelo processo construtivo, comunga com os princípios modernistas da produção em série, da eficiência, não importando as características locais ou mesmo geográficas.

A proposta proporciona a preservação das áreas ambientalmente importantes, formando parques e corredores ecológicos e promove “o uso planejado”. No discurso dos autores, o projeto “[...] planejado resgata de certa forma a vida em comunidade, essa relação com os vizinhos, reduzindo problemas, transtornos do deslocamento diário entre casa e trabalho” (PBH, 2010, p.265). Existem autores, como Jane Jacobs (2000) que discutem bastante esse discurso do “uso planejado” tão próprio do moderno de proporcionar “a vida em comunidade”. Na visão da autora, existem outros fatores que proporcionam esse sentido de comunidade, nos quais o planejamento, a higiene física, não está presente.

Observa-se que os espaços residenciais criam um ambiente de isolamento ainda maior, não bastasse a distância da cidade, o ambiente do edifício possibilitará todas as comodidades, como fazer ginástica ou praticar um esporte favorito, relaxar e promover reuniões. Na verdade esse isolamento nas unidades habitacionais não deixa de ser uma das consequências do controle modernista das funções urbanas. Controle este também, com menor intensidade, presente no ideário da Cidade Jardim (Fig. 4).

Figura 4 - Plano de ocupação do setor 5. Fonte: EIA, 2010.

A ideia das superquadras se faz presente também na concepção da Granja Werneck. Essa forma de ocupação espacial, que iniciou com os socialistas utópicos Robert Owen (1771-1858) e Charles Fourier (1772-1837), foi proposta pelo movimento modernista, como um novo módulo de organização espacial urbana, ao se apresentarem indivisa, coletiva, funcionalmente especializada e com macro escala física, confrontariando claramente as quadras do modelo de tradicionalmente limitadas na escala, divididas em lotes individuais e indefinidas quanto às formas de uso e ocupação do solo. Além disso, pela eliminação dos lotes individuais, apresentam-se as superquadras modernistas sem os problemas dos múltiplos acessos marginais das quadras parceladas tradicionais, bem como,

pelas suas grandes dimensões, sem a multiplicidade de vias e cruzamentos que caracterizam fisicamente o modelo tradicional.

Há um discurso no projeto da Granja Werneck, com relação ao planejamento de também gerar segurança. “Todos poderão morar em um bairro planejado, bonito, com estrutura completa e segurança 24 horas” (EIA, 2010, p.269). Isto significa, na visão de Soja, morar em verdadeiras “[...] Cidades Carcerárias, espaços que se assemelham a fortalezas e que contam com sofisticadas tecnologias de vigilância e detenção, respondendo a uma ecologia do medo” (2000, p.234). Reforçando esse ideário de segurança, o desenho urbano da Granja Werneck acaba por utilizar padrões de arruamentos sem conexão ou continuidade com a malha viária externa, mesmo que o discurso seja de aparente integração com o entorno. Assim “[...] observa-se uma inédita tendência a mesclar o desenho urbano, a arquitetura e a maquinaria policial em uma estratégia de seguridade global” (SOJA, 2000:238). Por exemplo, na organização do sistema viário, foi criado um sistema de ilhas, isto é, cada residencial é provido de um único acesso, embora não sendo controlado por portaria, acaba por favorecer a segurança. Dentro das ilhas existirão pequenos condomínios, onde o acesso será rigidamente controlado. Essas ilhas não deixam de ser uma apropriação formal dos esboços da Cidade Jardim.

A análise do processo de ocupação da Granja Werneck, como também de outras produções, como os recentes Alphavilles de Belo Horizonte, apresentam vários dos estereótipos observados em outros condomínios brasileiros e nos subúrbios norte-americanos, especialmente aqueles que são vinculados à idéia de status social, simbolicamente expresso em componentes de paisagem, arquitetura das edificações, artefatos, mobiliário urbano e utilitário, ornamentos, enfim, dos elementos gerais de utilização cotidiana do espaço condominial. Isto acaba tornando-se uma forma de regulação social, em cima das maneiras pelas quais relacionamos nossas imagens com a própria realidade.

Em sentido amplo, esta reestruturação por que passam as grandes metrópoles advogada por Soja, é marcada pelo “crescente poder político e social das simulações do real como substitutos lógicos e comportamentais para eventos e condições materiais reais.” Invariavelmente evocam uma vida ideal, sonho ou melhores condições e até condições ideais, que podem ser expressos em modelos espaciais que se tornarão objetos de desejo e verdadeiras ideologias como as expressas no empreendimento Granja Werneck.

Assim, o urbanismo científico acaba operando com uma estratégia de classe, através da reprodução de seus interesses, alienando as outras classes e impedindo que estas tomem consciência de tal processo. Essas ideologias alienam, pois “[...] quebram a unidade dialética do pensar e do atuar” (ARANHA; MARTINS, 1993). Almejar padrões externos significa desejar objetos que reproduzem todo um processo de alienação. Em Marx, a alienação refere-se a uma situação resultante dos fatores materiais dominantes da sociedade, caracterizada por ele sobretudo no sistema capitalista, em que o

trabalho humano se processa de modo a produzir objetos separados do alcance de quem os produziu, para se transformarem, indistintamente, em mercadorias (DEBORD, 1997).

O projeto urbano do empreendimento Granja Werneck, concebido segundo os parâmetros da eficiência, ocasiona, assim, a alienação da própria existência humana, que passou a ser constrangida a se adequar à nova dinâmica urbana, organizada de forma lógica e matemática. Isto condiz com o discurso dos arquitetos modernos, para os quais as cidades configuradas de acordo com uma lei geral, com uma organização global, constituídas segundo a racionalidade industrial, deveriam formar um todo ordenado, uma unidade coerente, com funções bem definidas, assumindo a estrutura de uma grande máquina industrial (TAFURI, 1985). Como veículos da indústria cultural produzem uma estandartização e uma racionalização da produção cultural e, ao mesmo tempo, conservam também “formas de produção individual” (ADORNO, HOIKEIMER, 1985). Trata-se, no entanto, de um pseudo-individualismo, no qual a propaganda e a manipulação possuem papel fundamental.

Assim, percebe-se que neste processo de exaltação da urbanização, as lutas, a sua autonomia e as formas de organização da vida cotidiana dessa população não são levadas em consideração. Existe uma reprodução de fórmulas de uma sociedade. Essa forma de dominação da burguesia sobre o proletariado, sua lógica e sua história, sobre todos os membros da sociedade é, na perspectiva de Guy Debord, caracterizada como “espetáculo”, com toda uma história de relacionamento entre o poder e a política, que se confunde com a existência dessas modalidades de organização social e do agir humano. O espetáculo na sociedade corresponde “[...] concretamente uma fabricação de alienação”. Embora a política de erradicação dos males seja, pelo menos no discurso, algo a ser conquistado, as intervenções demonstram a desestruturação das condições de vida da população afetada (DEBORD, p. 32, 1997).

Considerando o empreendimento Granja Werneck, sob a ótica do Culturalismo, poderiam ser considerados alguns pontos de confronto como o traçado viário proposto, concebido apenas com o objetivo de criar áreas para comercialização, não correspondendo ao sentido adotado nas cidades jardins, onde o sistema viário tem um papel diferenciado a cumprir, quer na definição de uma circulação estrutural de conjunto, quer na definição de um conjunto de pequenas comunidades, de vida interiorizada e autônoma. Outro aspecto é que a posse da terra no modelo da Granja Werneck é essencialmente privada, impedindo o controle de todo o processo urbano pelo poder público e a coletividade, atributos importantes na concepção do culturalismo de Howard. Também, os lotes produzidos na Granja Werneck, abrem-se invariavelmente para vias indiferenciadas de circulação, não apresentando as formas de relacionamento viário próprias das Cidades Jardins, que proporcionam a valorização de espaços vicinais, a mitigação do tráfego automotor por áreas verdes e uma circulação de pedestres em vias próprias, articulando a habitação com áreas verdes internas e áreas de interesse (Fig. 4).

Os pilares deste projeto na versão dos estudos apresentados são a vida em “comunidade e a preservação ambiental onde montamos uma espécie de uma cabala aonde a gente tem uma infraestrutura completa, comércio e serviços, uma associação comunitária, lazer e bem estar, segurança, saúde, educação [...]” (EIA, 2010, p.300). Para Jane Jacobs (2000), certos pensamentos dominantes sobre uma vida com mais qualidade na cidade estão ligados a ter nesses espaços, escolas, parques, moradias mais limpas e organizadas. Porém, não existe nenhuma relação entre uma boa moradia e um bom comportamento e mais, “[...] um bom abrigo é um bem útil em si enquanto abrigo, quando tenta-se justificar um bom abrigo com o pretenso argumento de que ele fará milagres sociais e familiares estamos enganando a nós mesmos” (JACOBS, p.125, 2001). Um prédio escolar funcional, novo, com salas confortáveis, não garante uma educação exemplar. Da mesma maneira, não existem garantias de que famílias de classe média ou classe alta possam constituir bons bairros e famílias pobres das favelas não consigam fazê-lo.

Considerações Finais

Verifica-se que a produção do espaço em Belo Horizonte continua a apresentar uma riqueza de processos e de contradições, que provocam um acirramento da fragmentação e da heterogeneidade de seu espaço. O capital exige, a cada momento histórico, condições para a sua reprodução. O momento atual de esgotamento dos espaços de expansão da cidade, apoiado em uma representação cada vez maior do setor terciário moderno que não pode ocupar qualquer área da cidade, reflete na busca por grandes empreendimentos, na remodelação do espaço da cidade, nas parcerias publico/privado e no acirramento das diferenças entre centro/periferia.

Observa-se, que os grandes empreendimentos imobiliários desenvolvidos em Belo Horizonte, continuam tendo similaridades com as concepções do Urbanismo Moderno. Vale destacar, que as teses progressistas e culturalistas foram amplamente apropriadas pelo mercado imobiliário. No projeto da Operação Urbana da Granja Werneck, essas características estão presentes, demonstrando antes de tudo, as possibilidades da integração entre o desenho urbano e a arquitetura como instrumento para as ideologias.

Inserida nas utopias do urbanismo científico, como pode-se verificar no caso da Granja Werneck, a ideologia torna-se um conjunto lógico, um sistema de representações (ideias e valores) e de normas de conduta para o usuário, que direcionam os membros da sociedade, indicando o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer. Principalmente na ideologia progressista que vem desde o Renascimento, sendo, portanto, um corpo de regras e de preceitos de caráter regulador, cuja intenção é fornecer uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas e culturais, sem jamais atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes, a partir da esfera da produção.

Finalmente, embora se considerem superadas as teses modernistas e mesmo culturalistas, como responsáveis por um modelo apriorístico e utópico de cidade, rigidamente totalizante e generalizante, é indiscutível que muitos dos valores eleitos por seus autores, frutos de suas sensibilidades para com os problemas gerados pela era industrial, permanecem como fortes referências conceituais para o planejamento urbano contemporâneo, continuando presentes, embora encaradas de diferentes formas, as preocupações com a higiene e o conforto ambiental urbano, com a presença do verde, com a organização da circulação motorizada, com o ordenamento das funções sociais urbanas, com o controle das densidades construtiva e demográfica e com a estética do meio urbano.

O projeto Granja Werneck não deixa de ser a reprodução socioespacial de processos que vêm ocorrendo nas principais cidades do mundo. Essas novas fronteiras imobiliárias, novas como fronteiras espaciais e sociais, mas não como projeto, vêm dando origem a centralidades, estendendo-se no território, em consequência dos processos de implosão/explosão do núcleo central das cidades e de reestruturação produtiva, produção flexível e compressão tempo-espaço.

Embora com algumas conotações diversas dos teóricos utopistas do urbanismo cientifico, empreendimentos como a Granja Werneck tentam vender uma utopia de uma sociedade ideal, em convívio harmonioso com a natureza e com os “vizinhos”, inquietando o imaginário como uma estratégia de marketing. Esse convívio depende muito mais de uma estrutura social mais ampla do que o simples desenho urbano de um bairro. As ideias presentes nas teorias do “urbanismo científico” continuam sendo apropriadas por grupos sociais e inseridas no inconsciente das pessoas, como produtos que estas deverão desejar.

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